Tondela, 6 Setembro 2009

Pérolas e laranjas.


Respiro a manhã, surgida de um silencioso dealbar enquanto me encontrava prisioneiro do sono.

Lenta mas agradavelmente sou acariciado pelas faíscas mornas dos traços de luz que irrompem por frestas nos braços das portadas do quarto.

Procuro o silêncio e os murmúrios da rotina que me faz Ser do dia. Mas tal revela-se uma impossibilidade pois no meu íntimo irrompe o eco do entusiasmo da caminhada que se faz próxima.

Sucumbo, e só imagino as vozes dos Domingueiros, o verde e os passos suados. E claro…as composições fotográficas que a geometria profana dos momentos vindouros possa revelar. (:

Mochila, farnel, máquina e um sorriso. Pronto me encontro.

Porta fechada do carro, Bliss no cd com o auspicioso “People among us” e em momentos já me encontro entre Domingueiros.

Em tempo nenhum, proporcionado pelo convívio, já serpenteamos por entre alcatrão moldado rumo ao ainda miragem Trilho dos Laranjais. Tondela é o pedaço de Portugal que o acolhe.

O fulgor do trepidar dos motores dá vez ao pó levantado pelas botas que pisam o solo.

Eis-nos no Trilho…

E como que um ritual, passo atrás de passo começamos a sentir a rudeza do piso e o intenso do sol.

A brisa calma espalha os olhares e os suores, mas também acolhe o mais ínfimo arfar e o mais cândido conversar.

Absorto pelo verde envolvente e pelas pontuações de ruralidade na paisagem que me abraça, deixo-me levar.

E a leveza que inspiro torna longínqua uma semana de solicitações do quotidiano. Magia do caminhar.

A procissão segue.

E eis que um recorte de água insinuantemente convidou a um de desapego do trilho. Os corpos param e os rasgos do chapinar dominam o momento. Mas só para alguns! Creio, no entanto, que a frescura desse recanto se tenha imiscuído nos ânimos de todos. Pois sorrisos bailavam nos rostos.

Explorámos e vogámos e vimos a vida e os ventos no trilho dos laranjais. Portugal perdido? Ou imagens de serenidade? Ali. Uma vida do que eu podia querer…

Sombras.

Nas sombras do trilho, o refúgio ao sol que não cessa, e os contrastes que nos acolhem convidando a uma já ansiada pausa…e a beijos a batráquios encantados…

Nada nesta plenitude de poeira e pomares estaria completa sem o crime perfeito.

Ao estender o braço e ao fechar a sacola, laranjas são pérolas e pêras diamantes.

E é com este tesouro que torna agradável o peso extra do que não podemos deixar para trás e indeléveis os momentos e os passos em mais uma jornada num Domingo (nada) qualquer…