Peneda, 3 de Junho de 2007

Após longa e lenta viagem, ao ritmo duma chaleira amarela, lá chegamos ao Santuário da Sra. da Peneda (por coincidência na Serra da Peneda!), ponto de partida para a nossa caminhada.

Minutos antes tínhamos desfrutado de uma excelente panorâmica sobre todos as aldeias que compõe a freguesia de Gavieira, tendo como pano de fundo o maciço granítico onde se iria desenrolar a aventura.

Começamos por percorrer um pequeno troço de asfalto (só para enganar) até encontrarmos o antigo caminho de brandeiros*, que nos levaria à Branda da Bouça dos Homens. Primeira surpresa, o trilho tinha a “porta” fechada. Como tínhamos arrombadores profissionais no grupo, foi canja passar este obstáculo. Depois de todos estarem dentro e da “porta” fechada, iniciamos a longa subida do caminho de granito polido pelas inúmeras passagens dos brandeiros, carregando o seu sustento para as residências de Inverno. Rapidamente surgiu um “líder” com sangue na guelra, que tentou logo impor o seu ritmo. Ao fim de 100 metros, já levava 200 de avanço! Claro que houve logo uma baixa, coisa resolvida rapidamente com uns chocolates e um pouco de ar puro (coisa que não faltava por lá).

Após a “subidinha”, com foto de grupo pelo meio, e entre uma paisagem fantástica, era a hora de esvaziar o bornal. Até “mines” havia, bem como broa com chouriço e um cheirinho para a digestão.

Antes que alguém adormecesse, reiniciamos o caminho até à Branda da Bouça dos Homens. Mais uma vez “tivemos que levar” com os dois jovens revolucionários a trautear uma conhecida música de intervenção, género “tiririri, tiririri”. Alguém dizia “vou ter pesadelos com esta música durante as duas próximas semanas”. Tivemos oportunidade de ver uma víbora negra (uma das duas espécies de víboras venenosas que podemos encontrar em Portugal), que não estava a sentir-se muito bem, devido ao calor (ainda bem que levávamos uma socorrista). Desde a aldeia víamos o próximo obstáculozito a transpor, o que originou uma preciosa recarga de baterias à sombra da vegetação que bordejava um ribeiro e onde metade do pessoal estava quase a “ferrar o galho”. Dizia-se que essa “foi a melhor parte do trilho”.

Vencida a última subida (ainda bem que foi a última) entramos no “vale encantado”. Era este o objectivo do percurso, chegar a este paraíso esquecido no meio da penedia, com os pequenos cursos de água, onde alguns dos presentes mataram a sede e atestaram os cantis, que se juntam para criar a represa de Chã do Monte, conhecida como o Pântano**.

Rãs! Milhões de rãs a coaxarem em grande algazarra! Alguns crentes tentaram apanhá-las ou fotografá-las! Mais um momento de repouso antes da descida quase vertical da fraga sobranceira ao santuário (havia quem a tentasse subir, pendurado numas corditas… principiantes), até ao café central onde nos esperavam as “verdadeiras” bem geladinhas. Para os menos apressados ainda houve uma breve visita ao castelo e aos espigueiros de Lindoso.

Saldo? Positivo.

*Ao longo dos séculos, as populações que se fixaram nas serras de Soajo e Peneda, desenvolveram formas de economia e povoamento profundamente articuladas, baseadas num sistema agro-pastoril. Estas populações viviam entre as Brandas nos planaltos mais elevados, no Verão, onde cultivavam cereais e mantinham o gado com o pasto das serras, as Inverneiras nos vales mais profundos, para onde se deslocavam com os animais em busca de pasto no rigor do Inverno e os Locais Fixos, geralmente a uma altitude intermédia e junto de cursos de água.

**Esta represa servia uma mini-hídrica que há anos fornecia energia eléctrica ao povoado da Peneda.