Carreço, 9 Abril 2006

Foi com algum jeito e paciência que se conseguiu que coubessem na tradicional fotografia de grupo, desta vez em frente à estação de comboios do Carreço, as mais de 30 pessoas que nesse dia se predispuseram a partir ao encontro marcado com o trilho da Chão.

Depois de atravessar a povoação, que só por si é merecedora de olhar atento e mais demorado, o trilho, lindamente enfeitado aqui e ali por pequenos charcos e orquídeas selvagens, começa por se perde em laivos de pudor nas matas perfumadas a eucalipto que orlam a base da Serra, que mais acima, quais cortinas de cena dum imenso palco, se abrem para dar início à maravilhosa sequência de paisagens que a Serra tem para brindar quem a visita.

E, qual abertura operática dum imenso espectáculo, começámos por nos deixar surpreender com uma vista inesquecível do monte de Santa Luzia a cujos pés se senta Viana do Castelo e lá ao longe o mar ternamente enleado nos braços dum céu azul e decorado pelo brilho dum jovem Sol Primaveril, obrigando, mesmo o caminhante mais desatento, a uma paragem de admiração e respeito para encher de beleza os olhos e a memória.

Quem se conseguiu arrancar à contemplação da paisagem e continuar a subir foi encontrar um pequeno lago em cujas margens se alinham os elementos duma ensurdecedora orquestra de rãs que, envergonhadas, se apressam a esconder nas águas escuras e verdes à mais subtil tentativa dos admiradores desejosos de fotografia autografada. Estes, pelos vistos, acabam por desalentadamente ter que se contentar com a obtenção da fotografia fugidia da cobra que nesse dia estiver encarregue do controlo das admissões e reformas antecipadas dos músicos efectivos.

E depois foi continuar a subir por entre pequenas manadas de cavalos que de longe nos observavam com placidez e tolerância, permitindo por vezes que alguns potros mais afoitos viessem, aguilhoados pela curiosidade (sim, que manadas de bicho homem não é coisa comum naquelas encostas!), examinar um pouco mais de perto os estranhos animais que naquele dia por ali passaram. Um pouco mais à frente e foi hora de nos reagruparmos e gozar dos prazeres bem vindos do descanso e dum almoço ao ar livre.

Antes de começar a descida ao longo do caminho de regresso ninguém se eximiu de, com maior ou menor dificuldade, subir até ao ponto mais alto daquela zona da serra onde se senta, qual senhor daquelas, o enorme marco geodésico que com paciência lá se resignou a suportar alguns exercícios imprevistos de escalada dalguns candidatos a conquistadores dum K7, Everest ou simples Monte Branco.

E lá prosseguimos ao longo da estrada, por vezes partilhada com um ou outro veículo, até chegarmos ao miradouro sobranceiro à estrada nacional onde parámos de novo para apreciar uma última vez a grandiosidade e beleza da paisagem da orla costeira Minhota.

E depois foi o início do regresso ao Cabeço, sempre a descer, ora por estrada, ora por velhas calçadas empredadas meio escondidas pela caruma e pelas árvores da mata, até à vila, onde, depois dum pequeno mas refrescante assalto aos gelados do café perto da estação, nos separámos, certamente já com o pensamento perdido na antecipação da próxima caminhada.